Introdução
No encontro anterior, refletimos sobre a ciência como uma construção coletiva e discutimos como diferentes grupos sociais contribuíram para a produção do conhecimento, embora nem sempre tenham recebido o devido reconhecimento. Também compreendemos que o acesso à educação e à carreira científica foi historicamente marcado por desigualdades relacionadas ao gênero, à raça e à condição social.
Neste encontro, voltaremos nosso olhar para três mulheres negras brasileiras que, em diferentes momentos da história, romperam barreiras e transformaram a ciência nacional:
Enedina Alves Marques;
Sonia Guimarães;
Jaqueline Goes de Jesus.
Cada uma delas atuou em uma área distinta do conhecimento, enfrentou desafios específicos e deixou contribuições relevantes para a sociedade brasileira.
Mais do que conhecer suas biografias, nosso objetivo é compreender o contexto em que viveram, os obstáculos que enfrentaram e a importância de suas trajetórias para a construção de uma ciência mais diversa, inclusiva e comprometida com as necessidades da população.
Ao analisar essas histórias, perceberemos que a ciência brasileira não foi construída apenas por grandes nomes tradicionalmente presentes nos livros didáticos, mas também por mulheres negras que desafiaram preconceitos e abriram caminhos para as gerações futuras.
Ciência, tempo e transformação social
A ciência acompanha as transformações da sociedade. Os problemas investigados pelos pesquisadores variam conforme as necessidades de cada época, assim como as oportunidades de acesso à educação e às instituições de pesquisa.
As trajetórias de Enedina Alves Marques, Sonia Guimarães e Jaqueline Goes de Jesus ilustram essa evolução histórica. Embora tenham vivido em períodos diferentes, todas enfrentaram barreiras relacionadas ao racismo e ao sexismo, demonstrando que o talento, a dedicação e o compromisso com o conhecimento podem superar obstáculos estruturais.
Para compreender melhor essas trajetórias, podemos organizá-las em uma linha do tempo.
Enedina Alves Marques: abrindo caminhos na Engenharia
A história de Enedina Alves Marques é marcada pela superação. Nascida em um período em que o acesso da população negra à educação era extremamente limitado, ela enfrentou dificuldades econômicas, sociais e raciais para concluir seus estudos.
Sua formação em Engenharia Civil representou um marco histórico, tornando-a a primeira mulher negra engenheira do Brasil. Essa conquista foi especialmente significativa porque a Engenharia era uma área predominantemente masculina, na qual a presença feminina era bastante reduzida.
Ao longo de sua carreira, Enedina participou de importantes projetos de infraestrutura, contribuindo para obras relacionadas ao desenvolvimento do estado do Paraná e à expansão do sistema energético brasileiro. Seu trabalho demonstra que a engenharia vai muito além da construção de edifícios ou estradas: ela está diretamente ligada à melhoria da qualidade de vida da população, por meio do planejamento urbano, da geração de energia e da ampliação da infraestrutura.
Sua trajetória revela que o conhecimento científico e tecnológico pode ser um instrumento de transformação social, especialmente quando pessoas historicamente excluídas conquistam espaços de atuação profissional.
Sonia Guimarães: excelência na Física e na formação de pesquisadores
Décadas após a trajetória de Enedina, outra mulher negra romperia importantes barreiras no campo científico. Sonia Guimarães tornou-se a primeira mulher negra brasileira a obter o título de doutora em Física, área caracterizada por elevados níveis de especialização e pela reduzida participação feminina.
Sua atuação ultrapassa a produção científica. Além de desenvolver pesquisas em materiais semicondutores e dispositivos eletrônicos, Sonia dedica-se à formação de novos pesquisadores e à defesa de uma ciência mais diversa e inclusiva.
Ao longo de sua carreira como professora e pesquisadora, ela tem enfatizado que ampliar a diversidade nos espaços acadêmicos fortalece a produção científica, pois diferentes experiências e perspectivas contribuem para a formulação de novas perguntas, métodos e soluções.
Sua trajetória demonstra que a ciência também se constrói por meio da educação, da formação de novos profissionais e do compromisso com a democratização do conhecimento.
Jaqueline Goes de Jesus: ciência a serviço da sociedade
Jaqueline Goes de Jesus é biomédica e pesquisadora na área de genômica e vigilância epidemiológica. Seu trabalho ganhou reconhecimento internacional durante a pandemia de Covid-19, quando integrou a equipe responsável pelo rápido sequenciamento do genoma do SARS-CoV-2 no Brasil.
Esse resultado permitiu compreender melhor a circulação do vírus e contribuiu para o desenvolvimento de estratégias de monitoramento e enfrentamento da pandemia.
Sua atuação evidencia uma característica importante da ciência atual: a colaboração entre pesquisadores de diferentes instituições e países. Diferentemente da imagem do cientista que trabalha isoladamente, a ciência contemporânea depende da cooperação, do compartilhamento de dados e da utilização de tecnologias avançadas.
Além disso, sua trajetória aproxima a ciência do cotidiano da população, mostrando que as pesquisas desenvolvidas nos laboratórios podem gerar impactos diretos na saúde pública, na prevenção de doenças e na formulação de políticas públicas.
O que essas três cientistas têm em comum?
Embora tenham atuado em áreas diferentes (Engenharia, Física e Genômica), suas histórias apresentam elementos comuns que merecem destaque.
Todas:
enfrentaram barreiras relacionadas ao racismo e ao sexismo;
alcançaram elevado nível de formação acadêmica;
produziram conhecimento científico de relevância nacional e internacional;
contribuíram para o desenvolvimento da sociedade brasileira;
tornaram-se referências para novas gerações de pesquisadores.
Ao mesmo tempo, cada uma delas representa um momento distinto da ciência brasileira:
Enedina simboliza a conquista do acesso ao ensino superior e à profissão.
Sonia representa a consolidação da carreira científica e da produção acadêmica de excelência.
Jaqueline evidencia a inserção da ciência brasileira em redes internacionais de pesquisa e sua capacidade de responder rapidamente a desafios globais.
Essa comparação permite compreender que a ampliação da participação de mulheres negras na ciência é resultado de processos históricos de luta por igualdade de oportunidades e reconhecimento profissional.
Representatividade, Legado e Inspiração
Conhecer as trajetórias de Enedina Alves Marques, Sonia Guimarães e Jaqueline Goes de Jesus permite compreender que a ciência brasileira também foi construída por mulheres negras que, em diferentes momentos históricos, enfrentaram barreiras sociais, raciais e de gênero para conquistar espaços de formação, pesquisa e atuação profissional.
Suas histórias evidenciam que a presença de diferentes grupos sociais na ciência não é apenas uma questão de representatividade, mas também um elemento importante para a ampliação das perspectivas e possibilidades de produção do conhecimento.
As três cientistas representam momentos distintos dessa trajetória. Enedina Alves Marques abriu caminhos em um período em que a presença de mulheres negras no ensino superior e na Engenharia era extremamente limitada. Sonia Guimarães ampliou essa presença no campo da Física e da pesquisa científica, tornando-se referência para outras mulheres negras interessadas na carreira acadêmica. Jaqueline Goes de Jesus, por sua vez, representa uma geração de cientistas inserida em redes contemporâneas de pesquisa, utilizando conhecimentos e tecnologias avançadas para responder a desafios de grande impacto social.
Suas trajetórias também demonstram a importância das referências positivas. Quando estudantes conhecem cientistas negras que alcançaram reconhecimento por suas contribuições, ampliam sua compreensão sobre quem pode produzir ciência e ocupar espaços de destaque na sociedade. Essas referências ajudam a romper estereótipos e a mostrar que a carreira científica pode ser um caminho possível para diferentes sujeitos, independentemente de sua origem, gênero ou pertencimento étnico-racial.
Valorizar essas histórias, portanto, significa não apenas reconhecer conquistas individuais, mas também contribuir para a construção de uma ciência mais democrática, diversa e inclusiva. Ao apresentar essas trajetórias aos estudantes, a escola cumpre um papel importante na ampliação das referências históricas e científicas, fortalecendo o reconhecimento da contribuição da população negra para a construção do conhecimento no Brasil.
Assim, o estudo de Enedina, Sonia e Jaqueline representa apenas o ponto de partida para uma investigação mais aprofundada. No próximo encontro, os estudantes assumirão o papel de pesquisadores, deixando a posição de receptores das informações para investigar, selecionar, analisar e sistematizar dados sobre uma das três cientistas.
Dessa forma, o conhecimento apresentado pelo professor será transformado em conhecimento investigado e produzido pelos próprios estudantes, dando início à etapa de pesquisa do projeto.
